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BIP e façanhas de Jorge de Brito segundo Silva Lopes

10/05/2009

Arquivo d`"A Capital", Jorge de Brito durante o seu julgamento, 1976

Arquivo d'A Capital, Jorge de Brito durante o seu julgamento, 1976

Muitos se queixam sobre os banqueiros presos em 1974-75, não foram só banqueiros, e terá havido abusos, chamemos-lhe assim, abusos.

O abuso de Jorge de Brito muito bem explicado às criancinhas, por Silva Lopes, no Público de hoje (excelente artigo no P2):

O Banco Intercontinental Português, o BIP de Jorge de Brito, “caiu” na secretária de Silva Lopes em 1974, quando este era ministro das Finanças do II Governo Constitucional. “Agora falamos destas coisas, mas comparado com o que o Brito fazia…”. “Estas coisas” são, como se entende, os casos BPN e BPP que nos últimos meses estão nas páginas dos jornais.

“O Brito utilizava os depósitos para os seus negócios pessoais. Tudo quanto ali se punha era para os seus negócios pessoais. Não emprestava apenas a si próprio. Emprestava também ao jardineiro, que era para ele, claro. Ele comprava de tudo: terrenos, palácios, arte… tudo. Depois, nas compensações do Banco de Portugal [o acerto dos cheques e transferências passados pelos clientes e depositados noutros bancos], o BIP estava sempre a descoberto. E o BdP aparecia-me lá quase todos os dias a dizer ‘mais um descoberto do BIP’. O BdP teve que adiantar nessa altura 10 milhões de contos, que agora corresponde a mais de 100 milhões [500 milhões de euros].”

Também aqui houve uma intervenção do Estado. “Um dia, já noite, fui chamado ao gabinete do primeiro-ministro juntamente com o dr. [Salgado] Zenha (ministro da Justiça) e com o dr. Rui Vilar (ministro da Economia). Fomos lá os três e ouvimos: ‘Eu quero-vos dizer que estamos a prender o Brito e o Agostinho da Silva, da Torralta’. Eles foram presos pelo Copcon. Nem sei bem se quando o Vasco Gonçalves falou connosco eles já estavam presos ou estavam a ser presos naquela altura. Isto foi por aí em Setembro de 1974”, conta Silva Lopes.

Depois foi nomeada uma administração do Estado para o BIP. “Recordo-me que tive um trabalhão enorme a convencer o dr. Medina Carreira a ser um deles. Ele lá aceitou. O Banco de Portugal, como era credor do BIP, ficou com as propriedades – os quadros não, já não estava cá nada, já tinham ido para Espanha.”

O caso não terminou aqui. “Eu saí do Governo e fui para governador do Banco de Portugal. Por volta de 1979 o Brito – que entretanto tinha sido solto – desenvolveu um processo para reaver os seus bens. E conseguiu, ainda hoje estou para saber como, um decreto-lei no tempo de Mota Pinto em que se dizia que ele reavia os bens se ninguém se opusesse. O BdP opôs-se, eu fui a tribunal e o juiz não deu provimento a esse caso.”
Uma mão pesada que, no entanto, não durou muito tempo. “Eu saí do BdP em 1980 e passados uns tempos, já no governo da AD, ele já conseguiu reaver as coisas, não sei bem em que condições. Pessoalmente, considero que o Brito foi um dos indivíduos mais fraudulentos do país. O que se está a passar agora não é tão mau, apesar de ser grave. Mas o pobre do Alves dos Reis, ao pé do Brito… e toda a gente sabe o nome do Alves dos Reis.”

O BIP acabou por ser incorporado no Sotto Mayor, um banco do Estado que pagou as contas. Qualquer semelhança com o caso BPN da actualidade não é, de facto, mera coincidência.

Clara Viana e Paulo Ferreira, 1975 O Ano da Outra Crise, Público, 10-5-2009

E não sei porquê mas lembrei-me agora que Jorge de Brito foi presidente do Benfca, que nem só de Vales e Azevedos se faz a história.

E da impunidade. A impunidade é como o natal em Portugal: é quando um banqueiro quiser.

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