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caralhadas

26/05/2009

Mapa das Regiões Hidrográficas de Portugal

Imperdível a semiótica do palavrão onde Paulo Moura  desenvolve, com brilho, sobre o funcionamento da caralhice no Porto – a Norte do Mondego digo eu, embora a importância da linha do Douro deva ser tida em conta.

Remata com esta peculiaridade dos filhos quando passam por filhos da mãe (gosto muito de filho da mãe, que é maneira como se não diz filho da puta, em particular a Sul do Mondego):

as elocuções “p. que te pariu” ou “filho da p.” são inequivocamente negativas, pois pressupõem que a mãe do interlocutor seria uma trabalhadora do sexo, pelo que o coito que deu origem àquele terá sido, não de amor, mas um acto mercantil. Pelo contrário, dizer “meu grande filho da p.” é um gesto de carinho, talvez por sugerir que o indivíduo em causa, por se ter comportado como um grande filho, merece o respeito e a protecção da sociedade, apesar das circunstâncias pouco auspiciosas em que foi concebido.

Confesso que mais do que a semiótica, é a geografia do palavrão que me desperta qualquer coisa da família do interesse.

Tive a experiência de trabalhar numa companhia de teatro de rua muito utente da brejeirice, resultando aliás estas conclusões de uma reflexão conjunta sobre os problemas da língua versus itinerância.

A reacção do povo perante uma caralhada organiza-se através das fronteiras mais naturais que tivemos, os rios, embora não seja de descurar algum peso da litoralidade.

A Norte do Douro é o que se sabe, a brejeirice resulta mal, sendo necessário trocar tranca por caralho, até por alguma desconfiança do público, que reagia às evasivas da linguagem com dúvidas sobre a heterossexualidade dos actores. A banalização baralha completamente as regras do jogo, e assisti a actuações fracassadas por via de um trocadilho de sucesso garantido pasmar na indiferença geral.

Entre Douro e Mondego, vulgo nas Beiras, pode dizer-se cu, mas já o resto não deve passar de margalho, e com cautelas. A tolerância acentua-se no interior Norte, mas do Mondego para baixo as coisas complicam-se progressivamente até se ultrapassar o Tejo, no seu além o sentido de humor não se compadece com facilidades, encaralhar a língua também é um bordão da piada, para não lhe chamar muleta ou mesmo cadeira de rodas.

Ainda há a registar ter toda a faixa piscatória o seu caralhar próprio, e bem sabemos que o povoamento do litoral se fez de Norte para Sul, trazendo a riqueza vocabular até aos Algarves, onde evidentemente Serra e Barrocão contam como Alentejo. Mas é só na faixa piscatória, na turística as chatices começam ou acabam com as traduções, e aí, aí nasce, cria-se e desenvolve-se toda uma outra problemática, e como é sabido as problemáticas são uma seca do caraças, palavra que está para a mãe acima referida como o caralho está para a puta.

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