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A ascenção do arrepio

16/07/2009

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Voltam a cortar a água, tanto como a respiração.

Micheletti, donde olha o horizonte, acredita nos versos de Rugam e crê, fidelissimamente, que a terra é um satélite da lua.

Uma caloraça (gosto desta descrição de novela) embrulha-se com a chuva, suspensa pela canícula que agora começa.

A canícula, essa terra de ninguém na guerra das trincheiras das estações… a canícula política, a canícula de observar o outro enquanto caminha moldado e lúbrico pelas paredes, a canícula de uma prática interrompida no momento em que dizemos que nos opomos totalmente ao Governo saído do Golpe Militar…

Nada vejo que me remeta à serenidade do Lama, pelo contrário, todos são um Lama querendo regressar seja como for às alturas do Tibete.

Os boatos correm como matilhas de cães nas ruas, saltitam, revolvem-se, mordiscam-se e súbito, entre as suas dentadas ascendentes, lança-se água de uma janela e fogem.

A jaula do toque de recolher abriu-se, mas nós os tordos voamos rápidos até outra: de jaula em jaula decorre o dia; os soldados dos oitentas vão desaparecendo um a um e reagrupam-se noutro saco de plástico. O medo instalou-se e passeia-se de uniforme transparente, na camuflagem colorida dos magalas, no olhar habituado dos velhos sapos, na ascenção do arrepio.

Um homem chamado Obama, dá-se conta que a romântica esperança não produz um milimetro de mudança, e que os impérios – acima de tudo – precisarão para sempre de falcões, que resguardem e reconquistem as suas fronteiras.

Fabricio Estrada, El ascenso del escalofrío, Tegucigalpa, Honduras, 15-7-09

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