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O Rui morreu-se

30/07/2009

Rui Paulo

Em finais da década de 70 e após uma noitada em que meia cidade tinha vindo parar a minha casa, acordei ressacado, e a desconfiar que andava a abusar da generosa ideia familiar de ir de férias e me deixar  “a estudar”, enquanto fumava o cigarro do desjejum apareceu-me um tipo a pedir lume. Deve ter dito mais qualquer coisa, registei esta frase: “o gajo desta casa é um tipo porreiro, meu, tá à vontade”; aqui está uma bela maneira de começar o dia, e o princípio de uma bela amizade

O tipo chamava-se Rui Carlos, Paulo de apelido, tinha aterrado em Coimbra com um saco de erva e a vaga função de ir a estudos de Direito. Rui Careca, e também Rui  Moderno sempre Ladino, andámos na missão de manter alguma chama na boémia revolucionária que se ia desvanecendo, trocada por capas, batin  as, praxes, bebedeiras em semanas certas e outras caretices. Fez-se o que se pôde, os tempos não andavam de feição.

Era já só missão, trunfó revolucionária.

Fomos cunhados, colegas e clégas, cúmplices em centos de disparates, e alguns momentos geniais ou nem por isso, aturámo-nos quando as vidas puxavam para baixo, chateámo-nos como não podia deixar de ser, fizemos coisas das coisas que nunca faríamos.

Quando, vai para 3 anos, soube pela L. que te tinha dado para a maldita, pedi-lhe que te metesse no carro e te trouxesse a Almodôvar, a ideia era chamar-te uns nomes e etc. Durante uma tarde bebemos e petiscámos, com um silêncio que nunca tínhamos construído. Acho que sabias o que eu queria dizer, acho que percebi que não valia a pena, nem era capaz. Não se discute teologia com o bispo, sabias bem o padre-nosso em que estavas metido.

Foi a última vez que nos vimos. Continuavas a ligar para me cravar uma transferência bancária que eu não ia fazer, um destes dias liguei eu, para te contar da morte de um amigo que te dizia respeito. Estavas com uma enorme pressa em mudar de assunto. Ontem soube que te morreste. És um cabrão, um anormal, um crápula. Podes crer que quando te apanhar a jeito te vou ao focinho Rui. Podes querer.

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  1. 15/08/2009 0

    vim parar a este blog seguindo o link de uma “muito sensível” troca de comentários com o maradona. Fui lendo, fui descendo, e fui parar, fiquei parada, no post sobre o rui paulo.
    O rui paulo foi meu colega de curso. Perdi-lhe o rasto, e o contacto, há mais de vinte anos. é do caraças quando a meio da noite, numa volta virtual, se leva com o estupor da realidade em cima.

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