ante pernas

2009 Novembro 21

As pernas das mulheres são compassos que percorrem o globo terrestre em todos os sentidos dando-lhe equilíbrio e harmonia

2009 Novembro 15

François Truffaut - L’ Homme qui aimait les femmes

Parábola do Camarada B. segundo Carlos Rates

2009 Novembro 7

Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, 1905

o camarada B. tinha toda a confiança do soviete de
Petrogrado cabia-lhe transportar dois soldados brancos
descobertos pelos anarquistas até ao comando militar
onde seriam fuzilados. o camarada B. era

magro tuberculoso, de uma actividade espantosa, sempre
alerta eloquente confuso, com os seus belos olhos azuis
cheio de juventude e sempre animado de entusiasmo. tinha

passado dez anos na prisão durante a sua vida de revolucionário.

o camarada B. encontra-se de revólver à cinta sentado
em frente dos dois prisioneiros pálidos
no automóvel que desliza para S. Pedro e
S. Paulo. de vez em quando lança um olhar
através da vidraça do carro um olhar

sobre a rua que desaparece. lembra-se do dia
em que o conduziam a ele próprio
igualmente preso, a caminho da mesma fortaleza
pelas mesmas ruas.

o carro aproxima-se da porta da Trindade. a flecha dourada de Pedro e Paulo brilha no céu dominando as casamatas.

- alto! – grita o camarada B. o automóvel pára a duzentos
metros do portão da cidadela. o camarada B. diz-lhes,
apontando as ruas desertas:
- vão-se embora.

o camarada B. sente neste momento, um alívio que tu não podes imaginar. o camarada B. parte perdido
objecto exposto

na Revolução de Outubro em Novembro de 1917.

(feito a partir de uma narrativa de José Carlos Rates (entrada manhosa da Wikipédia), fundador e 1º secretário-geral do PCP, incluída em A Rússia dos Sovietes)

MSN

2009 Outubro 21
por jjc

cadeia-visitas

falar, ver, ouvir, não poder tocar

a penitenciária onde nos metemos, voluntários

para nos imaginarmos livres

sonhando que não estamos lá.

ainda há o verbo teclar, mas

esse é outro infinito

insondável.

Tudo o mundo é composto de mudança, mas não abusem

2009 Outubro 16
por jjc

Afinal também vi o jogo e tenho um treinador de sofá dentro de mim

2009 Outubro 11

Se esse gajo tivesse jogado os 90 minutos ganhávamos, aposto.  Mas é sempre a mesma merda: os pretos, sobretudo se vindos do sul, são subavaliados,  há pressões para não jogarem, e lá têm de fazer pela vida.

Espero que depois deste golo o seleccionador (um homem que conheceu primeiro o firmamento visto do hemisfério sul antes de o trazerem para o norte e tinha obrigação de não andar atrás das bocas do povo) já o meta a jogar de início facilitando o entrosamento* dos colegas na rotina de lhe meterem a bola no corpo, que é agora o seu objectivo único e óbvio. Ainda bem que o Ronaldo versão Madrid anda a aprender esse serviço, e pelo que vejo a desaprender na marcação dos livres, viram por aí o Bruno Alves?

E sou optimista, acredito que para não variar vamos ao mundial depois de muita continha, grandes aís e muitos uís. Selecção que se preze deve ser o espelho do país, utilizando a nossa o verbo desenrascar em abundância de sorte. O gozo do futebol é sofrer e ganhar no fim, eu sei que da parte do ganhar andam arredados os adeptos dos clubes de Lisboa mas vão ver o gozo que dá, no fundo vocês são tão portugueses como nós e também têm esse direito.

Somos apurados, aposto, esse gajo aí, o que marcou o golo, o da foto, o estrangeiro, bem o merece.

Aventado a 6 de Setembro de 2009

___

* não uso, e muito menos escrevo, a palavra entrosamento, sobre a qual tenho a mesma opinião que tenho sobre o Ribeiro Cristovão enquanto assassino compulsivo de relatos de futebol. Foi o corrector automático que meteu lá isso, garanto, e não consegui apagar, lamento.

Os verdadeiros deuses

2009 Outubro 9

jjc, A Carteira, Coimbra, 2009

Epicarmo diz que os deuses são
o vento, a água, a terra, o sol, o fogo, os astros.

Eu considero que para nós os deuses úteis
são a prata e o ouro.  O que os tiver em casa
pede o que quer; tudo terá: terras, casas,
empregados, vasos de prata, amigos,
magistrados, testemunhas. Basta pagar:
terás esses deuses ao teu serviço.

Menandro, séc IV a. C. – tradução de Albano Martins

do ilusionismo não sendo uma metáfora

2009 Outubro 6
por jjc

pé de meia

os humanos escondem sempre, excepto os desabridos

um bocado de alma nos bolsos, os engraçados

em locais mais ocultos. assim nos surpreendem

os humanos a nós humanos

como quando descobrimos que afinal os bebés

são incompatíveis com as cegonhas

(uso mais a do menino jesus)

a nossa capacidade de acrescentar logros

aos já contados, é quase infinita

e no fundo até gostamos

enquanto parece parece que é

e como gostamos de ser enganados

nós humanos, afinal lorpa é

a real e verdadeira

mais antiga ocupação do mundo.

as pessoas assim agora

2009 Outubro 2

passam agora a vida a morrer. meteram as mãos nuns dias da minha vida, e desaparecem. no mar, no palco ou nos olivais.

o jorge humberto vasques foi no liceu quem era mesmo para o teatro. contracenámos uns segundos algures numa revolução no século passado, e a ideia de

ser tudo gente morta

faz-me bolhitas nos dedos, já se espalharam das falanges às falangetas

as unhas por cortar, nem sempre a morte é um acto involuntário

ando a ver cinzas onde vi homens com quem vi o mar com tempo ainda te habituas.

abuso, palavras

2009 Setembro 22

eu digo:
abusámos das palavras
ela diz:
as palavras abusaram de nós
eu acrescento:
apresentamos queixa no ministério público ou chamamos as televisões?
ela remata:
vamos.

a noite igual ao dia

2009 Setembro 22
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por jjc

Equinócio: instante em que o Sol, no seu movimento anual aparente, corta o equador celeste. A palavra de origem latina significa “noite igual ao dia”, pois nestas datas dia e noite têm igual duração.

No hemisfério norte começa agora o Outono. Também acaba o verão. Ambas as coisas me são agradáveis.

Termina a excitação que dilata os humanos, estendidos entre grãos de areia e metendo o corpo no mar como quem vai ao chuveiro.

Começa o espalhar das folhas pelo chão, o melhor tapete para os pés, sobretudo em dias de vento.

E a música abandona os tiques de engate veraneantes.

Os velhos deuses acordam no Outono. A celebração do fim de um ciclo é a festa do seu recomeço.

As melhores paixões vivem do Outono, e podem crer, a melancolia é o seu sublime condimento.

publicado em simultâneo

um céu sobre os anjos

2009 Setembro 19
por jjc

happyla_jurasevich_

Dave Jurasevich, A Happy Sky Over Los Angeles , 8 Dezembro 2008, explicado aqui

“O expresso da noite continuou a rolar com suavidade.”

Daniel Abrunheiro, Terminação do Anjo

I followed her to the station with a suitcase in my hand
And I followed her to the station with a suitcase in my hand
Well it’s hard to tell it’s hard to tell, when all your love’s in vain
All my love’s in vain

When the train rolled up to the station, I looked her in the eye
When the train rolled up to the station, and I looked her in the eye
Well I was lonesome I felt so lonesome, and I could not help but cry
All my love’s in vain

When the train it left the station, ‘t was two lights on behind
When the train it left the station, ‘t was two lights on behind
Well the blue light was my blues and the red light was my mind
All my love’s in vain

Robert Johnson

Rolling Stones – Love In Vain (1972)

razones, reprise ou quase que este até é o original

2009 Setembro 18
por jjc

já sabia que esta gaja me ia atravessar o estio

o que é bom por cima e mau por baixo

equinócio, chega acaba de vez com este verão

que me arrepia.

Declarações de Amor (VII)

2009 Setembro 16
por jjc

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com receio que não

te coubesse no dedo

Jorge de Sousa Braga, De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu

a conversa

2009 Setembro 12
tags:
por jjc
A Conversa, Henri Matisse, 1908-1912

A Conversa, Henri Matisse, 1908-1912

falar outra vez, repetir nova-

mente. por silêncios

murmúrios e frases  esta-

fadas

a meter a minha pupila na sua íris

a conversar

para dar em

nada.

outra vez.